Há alguns anos eu tenho umas ideias
perdidas que às vezes vão tomando forma na forma de textos.
Alguns destes
textos foram publicados num blog que eu tinha no myspace, e outros num jornal
local aqui da minha cidade.
Lendo-os novamente, entendi que alguns
continuam muito atuais, mesmo tendo sido escritos há dez anos, razão pela qual
vou publicá-los aqui, fazendo umas pequenas revisões e/ou adequações de acordo
com o momento que vivemos.
Espero que gostem!
A HIPOCRISIA DO JOGO PROIBIDO.
Dizem que no
Brasil existem leis que “pegam” ou “não pegam”. Trata-se de uma das poucas
Nações no mundo em que existe uma desculpa oficial para o descumprimento da
lei. E essa característica é dada a determinados textos legais pelos próprios
parlamentares. Cansamos de ver nossos excelentíssimos representantes declararem
esta situação em
entrevistas. Assim , a Lei já sai da Casa Legislativa
desacreditada, o que, por óbvio, desobriga a todos de seu cumprimento. Deixemos
para uma outra análise a conduta dos parlamentares.
Antes de mais
nada, deixo claro que escrevo não apenas por ser favorável à liberação do jogo. Sou
um voraz combatente da hipocrisia e da idiotice.
Desde 1946, ou
seja, há 61 anos, o jogo é proibido no Brasil. A proibição foi imposta pelo
Marechal Dutra por obra e graça de Dona Santinha (Carmela Leite Dutra), a
primeira-dama, a quem se reputa uma fé católica inabalável e uma grande ligação
com os setores mais conservadores da Igreja.
Acredito ser
este o primeiro exemplo de comandos legais que “não pegaram”. Afinal, desde que
o jogo foi proibido, ele continua existindo, só que de forma “alternativa” ou clandestina.
Os bingos, recentemente fechados, serão deixados de lado. Falaremos deles
oportunamente.
Vejamos
algumas possibilidades de jogo não-clandestino: é possível jogar em cassinos,
fazer apostas em campeonatos de futebol, baseball e automobilismo, tudo com a
maior tranqüilidade, pela internet, bastando ter um cartão de crédito; aqueles
um pouco mais abastados podem pegar um vôo até Montevidéu ou Punta Del Este e
jogar num cassino local; os demais, podem juntar as economias ou, pagar um
cruzeiro (a temporada anual começa agora) em 12 parcelas e jogar num elegante
cassino flutuante.
Num mundo
globalizado como o de hoje (em que se pode comprar qualquer coisa em Paris,
Londres ou Praga, com meia dúzia de toques no teclado), é impossível impedir
que as pessoas joguem pela internet. Assim, o jogo passa a existir de forma
legal dentro do território nacional. Quem ganha e quem não ganha com isso?
Ganham os
donos dos sites, seus anunciantes, as operadoras de cartões de crédito, as
agências de turismo, as empresas donas de navio, os hotéis, restaurantes e
clubes freqüentados pelos jogadores. Com um detalhe: pouquíssimos são brasileiros
(só as agências de viagem, acredito). Perdem os brasileiros e o Brasil, e
muito. Perdem em arrecadação de impostos, geração de empregos e desenvolvimento
da economia.
Observem o
exemplo mais gritante: Las Vegas, nos Estados Unidos, fica num deserto, no meio
do nada e é um dos maiores polos geradores de empregos e divisas daquele País.
Cassinos, hotéis, restaurantes e toda a sorte de estabelecimentos destinados ao
entretenimento. Lá se realizam atrações que são televisionadas para o mundo
inteiro. E é para lá que são atraídos os turistas com gosto pelo jogo e pelo
entretenimento. Muitos sul-americanos
(brasileiros em maioria) vão para lá gastar suas economias. Até mesmo Macau,
ex-colônia chinesa do outro lado do mundo passou a enxergar o jogo como fonte
de recurso e de desenvolvimento econômico, atraindo investimentos de bilhões de
dólares.
Enquanto isto,
há 61 anos, o jogo e todas as divisas dele decorrentes são proibidos no Brasil
e ninguém faz nada para mudar esta situação. Sucessivos governos têm preferido
deixar o jogo nas mãos externas ou clandestinas, quando poderia resolver seus
problemas de arrecadação com os tributos.
Porque ao
invés de um “Polígono das Secas”, não se estabelece um “Quadrilátero do
Entretenimento” num ponto do Brasil carente de investimentos?
Já temos uma
vocação turística bastante consolidada, que pode evoluir ainda mais. Basta
apenas atrair o turista disposto a gastar.
Difícil? Acredito
que não. Basta tentar fazer isso de maneira séria.
