Não
adianta chorar por Fabiane. Fabiane já está morta e sepultada, e jaz numa
gaveta nos fundos de um cemitério em Guarujá, que faz divisa com um lixão.
Deveria
adiantar, mas não adianta, chorar pelos filhos e pelo marido que ela deixa. Hoje,
dois enfants dormirão sem a mãe. E
crescerão sabendo que o amor de mãe lhes foi tirado injustamente, com base numa
denúncia infundada, colocada numa rede social sabe-se lá por quais motivos.
Sabe-se lá quem leu, divulgou e incitou.
Fato
é que a turba queria sangue. Queria e conseguiu.
Talvez
adiante chorar pela família arruinada. Pela falta da vida que ela deveria
levar, evoluir, crescer, envelhecer. Talvez pela ausência dela no altar quando
do casamente dos filhos, mas isso também não acontecerá.
Também
não adianta culpar este ou aquele, seja jornalista, seja radialista, seja
apresentador de tv. Conservador, de direita, revolucionário, de esquerda. Evangélico,
católico ou seja lá quem for.
Fabiane
morreu em razão da irresponsabilidade de alguns e da violência de outros.
Violência que é alimentada diariamente por uma série de cretinices veiculadas
nas redes sociais, que as pessoas nem percebem, mas que vão desde a provocação
de torcidas de futebol até a defesa intransigente de pontos de vista divididos
entre “esquerda” e “direita”.
Foi
na semana passada que Paulo Ricardo morreu atingido por uma, pasme, privada de
banheiro. Ele era suspeito de sequestro, magia negra ou coisa que o valha? Não.
Era um torcedor saindo de um jogo de futebol.
Outro
dia, um garoto foi assassinado por conta de um telefone celular. Adianta chorar
por ele? Pelos pais que tiveram sua vida destruída, num mísero instante, por
conta de um eletrodoméstico? Não adianta.
Uma
vida não vale mais nada na sociedade que se esconde atrás de redes sociais, que
cultua o “funk ostentação”, que se divide entre “esquerda” e “direita”, “conservadores”
e “liberais”. Rótulos, rótulos e mais rótulos.
Parece
que ninguém vê: no “País da Copa” estamos regredindo à época da completa barbárie,
da violência pela violência, do olho por olho, dente por dente.
Aí
você para, pensa e conclui: não adianta chorar por Fabiane.