Sou muito
ligado em música, rock principalmente, mas ando ouvindo outras coisas. Agora,
com um pouquinho mais de experiência, ando tomando um pouco mais de cuidado com
as letras, prestando mais atenção.
Hoje ouvi,
pela milionésima vez, Piano Bar, dos Engenheiros Hawaii. E só nesta milionésima
vez, reparei em algumas nuances da letra. E aí me toco que ela fala de
experiências que todos nós já passamos.
Olha só:
O que
você me pede, eu não posso fazer
Assim
você me perde e eu perco você.
Como um barco
perde o rumo
Como uma
árvore no outono perde a cor.
O que
você não pode, eu não vou te pedir.
O que
você não quer, eu não quero insistir.
Diga
a verdade, doa a quem doer
Doe sangue e
me dê seu telefone.
Todos
os dias, eu venho ao mesmo lugar
Às
vezes fica longe, impossível de encontrar
Mas, quando o
bourbon é bom
Toda noite é
noite de luar.
No táxi que me
trouxe até aqui, Willie Nelson me dava razão,
As últimas do
esporte, hora certa, crime e religião.
Na verdade
"nada" é uma palavra esperando tradução.
Toda vez que
falta luz,
Toda vez que
algo nos falta
O invisível
nos salta aos olhos,
É um salto no
escuro, da piscina.
O fogo ilumina
muito, por muito pouco tempo.
Em muito pouco
tempo, o fogo apaga tudo
E tudo um dia
vira luz.
E toda vez que
falta luz,
O invisível
nos salta aos olhos.
Ontem
à noite, eu conheci uma guria
Já
era tarde, era quase dia
Era o
princípio num precipício
Era o
meu corpo que caía.
Ontem
à noite, a noite 'tava' fria
Tudo
queimava, mas nada aquecia.
Ela
apareceu, parecia tão sozinha.
E
parecia que era minha, aquela solidão.
Eu
conheci uma guria que eu já conhecia
De
outros carnavais, com outras fantasias
Ela
apareceu, parecia tão sozinha.
E
parecia que era minha aquela solidão.
Destaquei
alguns pontos que acho interessantes. Quem nunca passou por isso? Certamente,
ao ler estes versos sem o acompanhamento musical, muita gente vai se
identificar com as situações.
Conhecer uma
guria (ou um guri), que era o “princípio de um precipício”, onde você se
atiraria sem paraquedas; ter de dizer não a um pedido, sabe-se lá porquê, ou,
pedir algo que alguém não pode dar; imaginar que essa negativa vai acabar com
tudo, enfim...
Eu já conheci,
eu já vivi. E já enfrentei a solidão. E não é a solidão de estar só, apenas. É
a solidão de ter de viver com uma decisão que lhe contraria, que lhe afasta
daquele alguém. É aquela solidão do sofrimento adolescente, jovial, cheio de
energia e de raiva.
Afinal, depois
do ontem à noite, parecia que era minha aquela solidão.
Uma amiga jornalista e da mais alta competência, me mandou uma mensagem no Facebook dizendo que lê meu blog. Pelo menos, uma confirmação de que alguém lê os textos mal escritos deste pretenso escriba, assim como os bons textos de terceiros que eu gosto de divulgar. Como ela disse, desacelera, mas não para. Em homenagem a ela, na sequência tem mais um texto mal escrito, acompanhado de música. Valeu!
Pois bem, li o texto e, também queria tê-lo escrito. Mais do que isso, concordo com o pensamento.
E seguindo a máxima de que informação boa é informação compartilhada, reproduzo o excelente texto da Ruth Manus:
Quanto tempo ainda vamos perder?
“A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade.”
Ah, Drummond.
Ele sempre foi minha grande paixão. Mas essa frase… Essa frase é especial. Foi a frase que minha amiga amada pediu para pintarem na parede do seu quarto quando começou a quimioterapia. E ela viveu todos seus dias intensamente, com um sorriso no rosto, pedindo pra ficar mais um pouco.
Até que um dia ela se foi. E eu, aos 18 anos, me prometi que viveria por mim e por ela. Que não teria medo de arriscar e que nunca faria da minha vida um mero encadeamento de dias. Estou tentando.
Então, diariamente, uma pergunta martela na minha cabeça: quanto tempo perdemos? E quanto tempo ainda vamos perder?
Porque me falta tempo; porque acordo cedo amanhã; porque tô com enxaqueca; porque tô de dieta. Com excesso de zelo, excesso de cautela, excesso de fé na ideia de que sempre pode ficar para amanhã.
Chega, vai. A vida é só uma e a vida passa correndo. Quando a gente vê, já passaram as chances e tudo o que sobra na cabeça é um triste e fosco rol de hipóteses não tentadas e de riscos não corridos.
E essa conversa não é necessariamente sobre projetos grandiosos. É simplesmente sobre sopros de liberdade. Sobre uma vida mais feliz por ter menos regras intransponíveis.
É sobre pegar um cinema sozinho, de preferência numa terça-feira.
Sobre comprar uma passagem poucas horas antes do voo. E ir só com a roupa do corpo.
Sobre voltar da padaria com um sonho pro porteiro do prédio.
Sobre ir de pijama à garagem buscar aquele negócio que ficou no carro.
Sobre entrar no elevador com a toalha de banho enrolada na cabeça
Sobre comer jiló, javali, jaca, jacaré.
Sobre pedir desculpas por um erro de 2002.
Sobre pegar insetos nas mãos.
Sobre ligar, dizer que sente falta, que sente muito, que sente que pode ser agora.
Sobre comprar aquela peça de roupa que você sempre namorou, mas que acha inadequada para a sua idade ou para o seu tipo físico.
Sobre fazer caretas para as crianças da perua escolar no trânsito.
Sobre parar num bar e tomar uma, duas, três cervejas só na sua companhia, em horários inadequados.
Sobre deitar na cama, dormir de roupa, sem escovar os dentes.
Sobre finalmente mandar pessoas tóxicas à merda.
Sobre cortar curtinho, pular do alto, nadar no fundo.
Sobre um belo dia resolver mudar e fazer tudo o que se quer fazer, se libertando daquela vida vulgar que a Rita Lee cantou.
Sobre não se render mais um dia à tal prudência egoísta que nada arrisca de Drummond.
Porque é fácil levar uma vida banal e queixar-se a respeito dela. Mas será que quando a vida não é fantástica, a culpa é do destino ou a culpa é nossa?
Eu não sei se a vida é curta, mas sei que essa vida é uma só. E que o tempo não volta.